CULTURAS DO HOLOCENO

I. As culturas pré-cerâmicas

Temperaturas quentes com umidade localmente diversificadas. Vegetação em expansão. Na alimentação, os moluscos terrestres ocupam posição determinada, amplia-se a acesso a proteínas vegetais e caça mais reduzida.
As culturas estão sendo diversificadas, à proporção que os grupos de caçadores-coletores se adaptar aos recursos locais. A pedra era predominantemente utilizada para fabricar artefatos que englobam ferramentas, armas e objetos de adorno. O uso das peças líticas caracteriza-se no período como múltiplo: cortar, raspar, furar, desbastar, moer, aplainar, serrar e até decorar. A matéria-prima predominante: o sílex, o quartzo e a calcedônia. Duas técnicas foram empregadas em função do uso e do avanço tecnológico: o lascamento e o polimento.
Em face da inexistência de artefatos cerâmicos, as culturas nessa fase são classificadas a partir da tipologia lítica. Duas tradições são consagradas notadamente: a UMBU, com datações obtidas no planalto meridional, e a HUMAITÁ, com datações próximas a seis mil anos, típica de áreas com altitude inferior a duzentos metros, ambas identificadas nos estados do sul do Brasil.

Duas tradições líticas gerais têm sido reconhecidas no sul do Brasil, uma com pontas de projétil líticas e outras onde estas estão ausentes. Esta última [é] designada tradição Humaitá (...) As pontas de projétil líticas são antigas na América do Sul e persistem no Sul do Brasil (...) na tradição Umbu." (Meggers, Evans, 1977).

A tradição UMBU, composta a partir da presença de caçadores-coletores em área planaltina, ocupando regiões menos arborizadas e espalhando-se por vales posteriormente, caracteriza-se pelas pontas de projétil e lascas retocadas, confeccionadas do silex, calcedônia, quartzo e ágata. Nessa tradição há uma ausência de peças polidas e picoteadas. As comunidades da tradição UMBU sepultavam seus mortos sobre cinzas, mesmo anda com a presença de brasas. Apenas colares de conchas foram resgatados do mobiliário funerário.
Artefatos líticos da tradição UMBU. Paraná.
(Segundo Chmy, coord., Projeto Arqueológico Itaipu)
Fonte: Prous, André (1992)

Alguns objetos de ossos resgatados são os furadores retocados, anzóis curvos, adornos de dente de tubarão e agulhas. Os registros rupestres em abrigos-sob-rochas da borda do planalto gaúcho são vinculados à tradição Umbu, apesar da inexistência de escavações contextualizadas e a presença, em alguns abrigos, de vestígios arqueológicos das tradições Humaitá, Taquara e Guarani.
A vinculação é proposta devido à presença de pontas de projétil praticamente em todos os contextos identificados (registros rupestres) e vinculação similar na Patagônia.

Com o aumento da umidade, a partir de 9000 anos A.P., temos o gradativo crescimento dos ambientes fechados. Isto parece que favoreceu o surgimento e a dispersão/ocupação desses ambientes, incluindo o planalto, de outro grupo coletor-caçador-pescador (invertemos os dois primeiros termos indicativos de modo de subsistência para distinguir este grupo, sem pontas-de-projétil líticas, do anterior, objeto de nosso estudo). Trata-se da tradição Humaitá. Na encosta do planalto, no Rio Grande do Sul, possuímos provas estratigráficas da ocupação da UMBU, seguida pela Humaitá. Com o surgimento da cerâmica e de alguns instrumentos polidos (lâminas de machado, mãos-de-pilão), a Humaitá evoluiu para a cultura de roças: é a tradição Taquara”. (Ribeiro, 1990)

A tradição Humaitá resulta da presença de grupos pré-históricos que habitavam os barrancos e terraços dos rios. Os artefatos líticos produzidos eram peças mais pesadas como chopper, chopping-tool e bifaces, inexistindo as pontas de projétil. Ocupando áreas próximas aos rios, sua atividade econômica predominante era a coleta de vegetais e a pesca.
As culturas pré-cerâmicas do Norte e Nordeste e Brasil Central ainda são pouco conhecidas. Comenta-se a tradição Itaparica, caracterizada pelo predomínio dos raspadores e da técnica de retoque unifacial. Essa tradição foi estabelecida pelo arqueólogo Valentin Calderon.

Se tomarmos como ponto de partida os trabalhos já publicados sobre o material lítico dos últimos 10000 anos, certamente chegaremos a uma grande divisão em dois grupos: o das pontas de projétil e o dos raspadores. Este se estenderia por uma paisagem de cerradão e de caatinga fechada e, por perdurar por todo este espaço de tempo, teria se adaptado à caatinga aberta, à medida que o processo de desertificação foi se acelerando” (Rocha, 1990).

II. As culturas pré-cerâmicas do litoral: Os sambaquis


Em lagunas, baías, enseadas ou ao longo dos mangues há o registro de importantes sítios arqueológicos: os sambaquis. A palavra, de origem tupi, significa amontoado (IRI) de mariscos ou conchas (TAMPA). Compreendem, portanto, os acúmulos artificiais de conchas e moluscos (Ostra, Berbigão, Mexilhão). Os grupos pré-históricos de coletores marinhos baseavam o seu sustento preferencialmente na coleta de moluscos, que eram abundantemente encontrados nas lagoas, mangues e baías do litoral do Brasil. Não se sabe se a coleta de moluscos seria uma atividade predominante e anual de moradores do litoral ou uma atividade estacional e complementar de populações transumantes entre o litoral e o interior.
As datações nos sambaquis brasileiros situam aquelas culturas entre oito e dois mil anos do presente. Em forma de calotas, os sambaquis ou concheiros constituem morros artificiais entre dois e dez metros de altura, com trinta metros, em média, de comprimento e largura. A decapagem nos depósitos constata vestígios humanos: fogueiras, enterramentos, líticos, restos de alimentos e, em menor número, recipientes de barro não cozido.

Local de acampamento temporário de comunidades caçadoras, pescadoras e coletoras, geralmente litorâneas, de forma e dimensão variável, contendo, de acordo com o grau de adaptação ou especialização, quantidades variáveis, e as mais numerosas evidências da atuação humana: artefatos de pedra, osso e concha, cerâmica, sepultamentos, resíduos de carvão, cinzas de fogueiras, matéria corante, entre outros” ( Lina Kneip, 1977 )



Zoólitos. Coleção Padre Rohr, IPHAN, SC.
Os maiores sambaquis brasileiros já identificados situam-se no Estado de Santa Catarina (Laguna, Garuva e São Francisco do Sul), onde chegam a atingir trinta metros de altura por centenas de comprimento. Os sambaquis não são apenas amontoados de moluscos mas devem ser entendidos como restos de acampamentos, reunindo, além dos resíduos alimentares, vestígios de habitações e sepulturas. Edificados à beira d’água, os acampamentos possibilitavam aos grupos coletores recursos abundantes, diversificados e renováveis.

Escavações arqueológicas nos sambaquis constataram, junto aos alimentos, vestígios outros da coleta e da caça, tais como conchas, ossos, dentes, chifres, etc. Seus sepultamentos são primários, em posição fletida. Há fogueiras ligadas ao ritual de enterramento. Os líticos resgatados são mais polidos e picoteados que apenas lascados. São batedores, bigornas, machados, pesos para redes e zoólitos.

A partir da variabilidade dos rituais funerários na sociedade sambaquieira (Gaspar, 2000), autores levantam a hipótese de desigualdade social. No entanto, não há evidencias que indiquem uma chefia institucionalizada. Esculturas (zoólitos) em pedra e osso indicam habilidade artesanal em suas confecções mas, pelo volume obtido (5 mil anos da cultura) não caracterizaria uma atividade destacada. Madu Gaspar sugere que “a existência de uma sistema de regras rígido para a sua confecção indica a presença de algum tipo de organização supra-comunal que permeava as relações sociais (...). Ficou para trás a figura desenhada nos primórdios da arqueologia brasileira que representava os sambaquieiros como bandos simples de coletores na constante busca de moluscos, tentando escapar da fome e da má nutrição”. A matéria-prima mais presente: o granito, gnaisse e diabásio. Inúmeros os objetos de ossos, conchas e chifres como perfuradores, raspadores e adornos.
Alguns sambaquis fluviais em terraços, nas encostas dos morros, já foram identificados nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No litoral do Nordeste, o arqueólogo Valentin Calderón (UFBA) escavou o sambaqui da Pedra Oca, no recôncavo baiano. Identificou a cultura como Periperi. Já no Maranhão, a equipe do Museu Goeldi registrou sambaquis próximos a São Luís. No Rio Grande do Norte foram identificados assentamentos préhistóricos em dunas, ao longo da costa. No Rio Grande do Sul há os CERRITOS, montículos artificiais nos banhados que circundam em alguns desses sítios, propondo duas tradições para os mesmos: a ITAIPÚ, mais antiga, pré-cerâmica, e a VIEIRA, recente, já de ceramistas.


 III. As Culturas dos Ceramistas (A partir dos 5.000 anos)

A partir do holoceno, há uma destacada ampliação no número de sítios arqueológicos brasileiros. Em todas as regiões e praticamente em todos os estados, começam a ser resgatados os vestígios da pré-história brasileira mais recente. Com isso, a difusão da agricultura terá papel destacado no crescimento vegetativo dos grupos. A arqueologia brasileira já tipificou inúmeras culturas, tais como:

a) Culturas Meridionais: tradições Taquara e Itararé. Os grupos pré-históricos procuraram o planalto meridional, distantes dos rios mais importantes, provavelmente fugindo do avanço Tupi-guarani, os hábeis canoeiros. A cerâmica passa a ser o vestígio mais presente nos sítios arqueológicos. A Itararé, pouco decorada, baixa cocção, paredes finas e base convexa. Seu antiplástico, areia e quartzo. A Taquara, com uma pasta mais fina e homogênea. A decoração chega a
50% dos fragmentos encontrados.

Esta cerâmica caracteriza-se pelo pequeno porte de suas vasilhas onde a abertura da boca, nas formas mais verticais (potes), mantém-se estreita. Mesmo nas peças mais horizontais (tigelas), tal abertura tem pouco diâmetro. (...)
Pode-se dizer que a cerâmica itararé é uma cerâmica tipicamente utilitária, sendo possível visualizar-se na parte externa das bases sinais de fuligem que atestam seu uso direto ao fogo para cozinhar alimentos. No interior das vasilhas é comum encontrar-se crostas mais ou menos compactas de restos de alimentos.
” (Sérgio, 1990)

Nos líticos, projetam-se os polidos como machados de mão e pilão. Nas lascas, as facas e pontas de flecha, além de chopper e chopping-tool. Raríssima a presença de ossos e conchas trabalhados. Datações comprovam a presença Itararé até o século XVIII.

b) A Cultura do Brasil Central e Nordeste: tradições Una e Aratu. As culturas ceramistas da tradição UNA situaram-se nos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas e Goiás. As datações dividem a tradição em uma fase mais antiga, próxima a quatro mil anos do presente, e em uma mais recente, a menos de dois mil anos.

A UNA mais antiga é caracterizada, na cerâmica, pelo uso de antiplástico vegetal, ausência de decoração, recipientes pequenos (20 centímetros de diâmetro na boca), formas globulares e cônicas. A pasta é compacta e a cocção excelente. Nos líticos, pouco material polido, lascas de sílex e quartzo. A UNA mais recente é caracterizada por uma cerâmica negra, vasilhames pequenos, globulares e piriformes. Como antiplástico, a própria argila em cacos moídos. Aumenta o número de artefatos líticos polidos.
A tradição ARATU ocupa um vasto território: de São Paulo a Mato Grosso e Goiás e do litoral da Bahia ao Rio Grande do Norte. Como essa tradição será detalhada na análise da pré-história sergipana, apresentamos a seguir um resumo de suas características:
  • Os sítios mostram que todas as habitações eram a céu aberto e não ocupavam grutas. Eram comunidades de expressivas densidades, em áreas de 200 x 100 metros. As cabanas formavam alinhamentos ou círculo ao redor de uma praça central.
  • As urnas funerárias, piriformes, ao redor ou no fundo das habitações, caracterizam, predominantemente, os enterramentos secundários.
  • O mobiliário dos enterramentos era constituído de machados polidos pequenos (10 cm) e rodelas de fusos e de cerâmica.
  • A cerâmica é lisa, sem decorações, com tempero de areia e grafita. Os recipientes são globulares e as bases cônicas, predominantes.
  • Cachimbos tubulares são também encontrados.
  • O material lítico polido apresenta inúmeros artefatos como machados, quebra-cocos, batedores, bigornas. Nas lascas, destacam-se os raspadores.
  • As ocupações eram feitas em regiões colinares, perto de riachos. 
“ Antes da chegada dos europeus, os povoadores “índios” aprenderam a viver em todos os ambientes deste hemisfério. Esse processo se prolongou por milhares de anos. Em alguns lugares, como no Peru e no México, criaram-se nações que assombraram os invasores espanhóis pela eficiência de sua organização estatal, a magnificência de suas cidades e a opulência de seus governantes. Em outros locais, como o Brasil e a América do Norte oriental, pequenos grupos de famílias extensas, providos de escassos bens materiais mas de um vasto domínio do seu meio ambiente, salvaram os colonizadores europeus da morte por inanição ou exposição ao frio. Grande parte desse saber se perdeu com a extinção dos aborígenes. Uma fração dele, porém, pode ser recuperada pelos arqueólogos.” Betty J. Meggers (1985).

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