CULTURAS DO PLEISTOCENO

Populações de 12 mil A.P. (Antes do Presente) que teriam vivido concomitantemente com a megafauna. Sítios principalmente de matança, não de acampamentos residenciais. Artefatos identificadores, pontas bifaciais, especializadas, de projétil, geralmente acompanhadas de lascas usadas como facas, raspadores e raspadeiras; o ambiente, um período frio e seco; população, pouco numerosa e nômade, organizada em bandos frouxos.
Os animais caçados seriam, como hipótese ainda não plenamente constatada, os que se extinguiram com o final da glaciação e que, em termos populares, poderíamos denominar de bisontes, cervídeos e camelídeos, antigos cavalos, preguiças e tatus gigantes, antas, tigres-dente-de-sabre etc.
O conceito de Paleoíndio, no Brasil, é utilizado para as culturas mais antigas, encontradas em Goiás, Minas Gerais, Piauí, Pernambuco e Rio Grande do Norte. O conceito de período Arcaico para as outras culturas de caçadores pré-cerâmicos. Em alguns estados brasileiros há datações que registram a presença do homem antes de doze mil anos: em Minas Gerais, a cultura do homem de Lagoa Santa (Gruta do Sumidoro, Lapa Mortuária de Confins, Cerca Grande em Pedro Leopoldo); em São Paulo, o Sítio Alice Boer, em Rio Claro e no rio Ribeira do Iguape; no Mato Grosso, o Abrigo do Sol, em um afluente do Guaporé.
As datações mais antigas recuam a presença de culturas humanas há 14 mil anos do presente. Há uma correlação cronológica entre o paleoíndio e os megatérios.
                                                                                           crânio de Luzia


Segundo Mendes (1970), os megatérios foram animais de grande porte, chegando a ultrapassar 5m de comprimento. Os seus caracteres anatômicos aproximam-se muito das preguiças atuais. Mas, no tocante aos hábitos, parecem ter divergido, pelo menos numa particularidade: animais tão corpulentos não poderiam ter sido arborícolas. Alimentavam-se, também, de folhas e brotos, a julgar pelo tipo de dentição. Eram cobertos de pêlos grosseiros, como as preguiças e tamanduás, fato que comprova através de um fragmento de pele de milodonte, parente do megatério, preservada numa gruta de Patagônia. Os seus membros locomotores apresentavam uma torção em virtude da qual as plantas dos pés se voltavam para dentro. Eram dotados de grandes garras em forma de gancho.
Enfim, a sua conformação anatômica somente lhe permitiria marcha lenta e pesada sobre o solo, embora não tão vagarosa quanto à das preguiças de hoje. Essa interpretação valeu-lhes o cognome de “preguiças terrícolas”. Se o animal desejasse alcançar ramos mais altos, teria que se erguer sobre os membros posteriores, apoiando-se com as patas dianteiras sobre o tronco das árvores. 

(...) Assim como os megatérios se assemelhavam às preguiças, os gliptodontes lembram os tatus. Mas estes são mais antigos que os gliptodontes e provavelmente deramlhes origem do decorrer do terciário. Ambos os grupos se caracterizam pela posse de uma carapaça dorsal. No caso dos gliptodontes, a carapaça não se constituía de anéis móveis, como a dos tatus, mas de um mosaico de placas ósseas, solidamente ligadas entre si” (Mendes,1970).


          Megatério                                                                                                                 Mastodonte                                                                               

Os gliptodontes alcançavam, em média, dois metros de comprimento. Entre os grandes carnívoros do final do pleistoceno, o maior e mais agresssivo foi o Smilodon Populator, ou tigre-dentes-de-sabre. Porte superior ao da maior onça conhecida. Os Caninos atingiam cerca de trinta centímetros de comprimento.
Registra-se também a presença dos toxodontes, do tamanho de um hipopótamo e, como aqueles, eram anfíbios. Os mastodontes assemelhavam-se fisicamente aos elefantes. Enormes presas, com pontas encurvadas para o alto e mais de um metro de comprimento. 
No caso da América, acreditamos que pode ter ocorrido uma confluência dos três fatores, pois houve, efetivamente, mudança climática, com a diminuição da área dos campos e cerrados – os habitats originais desses grandes animais – concomitantemente a expansão da ocupação humana, que pode tanto ter espalhado doenças como extinguido o número desses animais por meios das caçadas. Segundo alguns estudos realizados com o auxilio de simulação com modelos computacionais, em apenas mil anos a caça excessiva seria o suficiente para acabar com algumas espécies de animais. Como quer que seja, o fim da megafauna foi a mais significativa extinção de animais do planeta desses a época dos dinossauros, podendo ser considerada importante por ter sido contemporânea do ser humano e, portanto, possivelmente relacionada à ação deste. Entretanto, seria mesmo correto atribuir ao homem essa destruição, ou seria apenas a nossa consciência pesada a sugerir tais hipóteses? Não sabemos, mas o estudo da megafauna extinta, por essa ligação umbilical com o ser humano, promete continuar a concentrar a atenção dos pesquisadores do passado pré-histórico e a gerar novos conhecimentos coevolucionários entre humanos e animais” (FUNARI, 2001).
A partir da década de setenta, no Piauí, a arqueóloga Niede Guidon, nos sítios Boqueirão da Pedra Furada e do Meio, apresenta datações de mais de cinquenta mil anos do presente.
Das culturas pleistecênicas, os artefatos recolhidos são choppers, chopping-tool, batedores, lascas e núcleos trabalhados (líticos), fogueiras com a recuperação de parte da dieta alimentar e ossadas humanas.
Na fauna pleistocênica ainda presente a megafauna, com os megatérios (preguiças gigantes), gliptodonte (tatus), tigres dentes-de-sabre, ursos, toxodontes (similares ao hipopótamo), mastodontes (parecidos com os elefantes, com grandes presas). Aspectos climáticos apontam, como reflexo das glaciações no hemisfério norte, períodos de chuvas e secas. A oscilação do clima, (glaciação Wisconsin), chegou a quatro graus centígrados. O nível do mar estava a 90 metros do atual há vinte mil anos. Há sete mil anos o nível se apresentava a dez metros abaixo. Este o fator apontado para a ausência de culturas pleistocênicas no litoral.
Em período anterior (30 a 20 mm anos AP) as condições climáticas eram mais amenas e o nível do mar mais alto; o holoceno traz o calor e a umidade, com a elevação do nível do mar, caracterizando a tropicalização do Brasil.
O final do pleistoceno (cerca de 18.000 – 12.000 anos AP) é rigorosamente frio e seco e o nível do mar está ao menos 100m abaixo do atual; o período anterior (cerca de 30.000 – 20.000 anos AP) apresenta, ao menos parcialmente, condições climáticas mais amenas e o nível do mar mais alto; o holoceno, finalmente, traz consigo o calor e a umidade, junto com um nível de mar alto, que redundam na tropicalização do Brasil e, a partir do início de nossa era, numa certa estabilidade dessas condições.
Os animais herbívoros, a que o homem estava principalmente ligado, reagiram de forma idêntica ao aparecimento e desaparecimento de cada ciclo climático, de forma que a fauna florestal podia, em qualquer lugar, ser substituída por outra adaptada às condições da estepe ou da tundra e vice-versa.
Os sítios arqueológicos no pleistoceno estão ligados a nichos naturais de recursos diversificados: alimentos, combustível, abrigo e matérias primas para a promoção de utensílios, instrumentos e armas. Neles, os caçadores-coletores tinham acesso a grande número de espécies de animais de médio e pequeno porte. A captura não exigia um arma especializada: armadilhas, porretes, a criatividade e a força muscular do homem. As proteínas vegetais, em sua maior parte, frutos de acesso fácil, raízes e tubérculos. A partir de vestígios da dieta alimentar e registros rupestres, algumas espécies animais são conhecidas: antas, capivaras, veados, pacas, tatus, tamanduás, lagartos, emas, peixes e aves. Nos rios, como o São Francisco e seus afluentes, a piscosidade durante a piracema foi fator decisivo para os deslocamentos e instalação de grupos.
Os habitats dos caçadores-coletores se dão em grutas ou abrigos, no alto de colinas ou à beira dos rios.
A pré-história brasileira no período quaternário, o holoceno, é subdividida em duas fases. Na primeira são situadas as culturas pré-cerâmicas, entre 12 a 5 mil anos do presente; na segunda fase, as culturas dos ceramistas, a partir de cinco mil anos. Quando do início do holoceno, o espaço territorial hoje constituído como Brasil já tinha sido ocupado por caçadores-coletores.
A base econômica continuava sendo a caça, a coleta e a pesca. Expressivo aumento demográfico, notadamente com a introdução de técnicas agrícolas, gerou atritos interétnicos com aumento de pressão ocupacional sobre os ecossistemas. Com a instalação do semi-árido no holoceno, o clima inviabilizou a sobrevivência da megafauna. As transformações operadas no meio ambiente alteraram, nos grupos pré-históricos, o seu modo de vida. Um conjunto de práticas e conhecimentos relativos aos hábitos cotidianos foram sendo processados e desenvolvidos lentamente. No holoceno a tecnologia deu um salto para a frente com a revolução na produção de alimentos, há aproximadamente cinco mil anos.








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